Verão, sol, praia e piscina: o cenário perfeito para as férias dos mais novos, mas também a época em que os olhos das crianças ficam mais expostos a perigos invisíveis. Se colocar protetor solar na pele já é um gesto automático para todos os pais, a proteção da saúde visual na infância é, muitas vezes, esquecida. Sabia que os olhos das crianças são muito mais vulneráveis à radiação solar do que os dos adultos? E como devemos agir perante a clássica irritação do cloro, a areia no olho ou o uso de lentes de contacto nos mergulhos? O Dr. Tiago Fernandes, médico Oftalmologista, explica detalhadamente quais são os riscos reais desta estação e partilha tudo o que precisa de saber para que este verão seja sinónimo de diversão, com a visão sempre protegida.
Dr. Tiago, no verão protegemos sempre a pele das crianças com protetor solar, mas muitas vezes esquecemo-nos dos olhos. O sol pode queimar ou danificar os olhos dos mais pequenos? Quais são os riscos reais da exposição solar sem proteção na infância?
Boa pergunta para começar! Sim, os olhos das crianças também podem sofrer com o sol — e até de forma mais séria do que a pele, em alguns casos. Os olhos das crianças têm o cristalino (a “lente” natural do olho) muito mais transparente do que o dos adultos, o que deixa passar muito mais radiação UV até às estruturas internas. Só nos primeiros 10 anos de vida é que o olho vai ganhando essa proteção natural. O resultado: os riscos incluem desde a “queimadura” superficial do olho (chamada fotoqueratite, tipo uma escaldadela na córnea) até danos cumulativos que, décadas depois, aumentam o risco de cataratas e de degenerescência macular. E como as crianças passam muito mais tempo ao ar livre do que nós, a exposição acumulada até aos 18 anos já representa uma fatia enorme da exposição de UV de uma vida inteira. Por isso vale mesmo a pena mudar o hábito, tal como já fazemos com o protetor solar.
A partir de que idade é que as crianças devem começar a usar óculos de sol? E que cuidados fundamentais devem os pais ter ao escolher esses óculos?
As recomendações internacionais apontam para cerca dos 6 meses de idade, altura em que o bebé já pode tolerar bem os óculos. Antes disso, o mais importante é manter o bebé afastado da exposição solar direta, com sombra, chapéu e capota do carrinho.
Ao escolher:
- Nunca olhem só para o preço ou a moda — o que interessa é a proteção UV. Procurem a indicação UV400 ou “100% proteção UVA/UVB”. Se a etiqueta não disser isto de forma clara, não compensa.
- Lentes escuras sem proteção UV são, na verdade, piores do que nada, porque a pupila dilata com a escuridão e deixa entrar ainda mais raios UV não filtrados.
- Prefiram modelos envolventes (tipo “wrap-around”), que protegem também pela lateral.
- Material policarbonato, resistente a impacto, e armação flexível — porque crianças são crianças.
- Um chapéu de aba larga complementa (mas não substitui) os óculos, já que bloqueia apenas cerca de metade da radiação.
É comum as crianças saírem da piscina com os “olhos vermelhos”. Isto deve-se apenas ao cloro ou pode ser sinal de algo mais? O que se deve fazer de imediato para aliviar esse desconforto?
Na maioria das vezes, sim — é uma irritação química simples pelo cloro e outros produtos de tratamento da água, que resseca o filme lacrimal natural do olho. Costuma vir com ardor ligeiro, olhos vermelhos e talvez visão um pouco baça, mas melhora em pouco tempo.
O que fazer na hora:
- Lavar os olhos com soro fisiológico (ou água limpa, se não tiverem soro à mão).
- Aplicar lágrimas artificiais/lubrificantes se tiverem em casa.
- Evitar que a criança esfregue os olhos.
Sinal de alarme: se a vermelhidão não melhora em algumas horas, se aparecem secreções amareladas/ esverdeadas, dor importante, sensibilidade forte à luz, ou se afeta só um olho e depois “salta” para o outro — aí já pode não ser só o cloro, mas uma conjuntivite a instalar-se por cima da irritação.
Os mergulhos no mar e as brincadeiras na areia também trazem riscos. O que devem os pais fazer se entrar areia ou água salgada diretamente para o olho de uma criança? Qual é o protocolo correto para limpar o olho sem causar lesões na córnea?
O maior risco aqui é o atrito — esfregar o olho com areia dentro pode riscar a córnea. Por isso, a regra de ouro é: nunca esfregar.
O que fazer:
- Lavar abundantemente com soro fisiológico, deixando escorrer de dentro (canto junto ao nariz) para fora, com a cabeça inclinada para o lado.
- Se não houver soro, água limpa (de preferência engarrafada) serve.
- Podem pedir à criança para piscar os olhos dentro de água limpa — o próprio piscar ajuda a arrastar os grãos.
- Se houver uma pálpebra virada, podem tentar puxar suavemente a pálpebra superior sobre a inferior, para que as pestanas “varram” o corpo estranho.
Vão às urgências se: a areia não sai depois de lavar bem, a criança sente que “ainda lá está algo” a arranhar, há dor persistente, ou vocês veem sangue ou vermelhidão muito localizada — pode ser um risco na córnea que precisa de avaliação.
O verão é a época alta das conjuntivites em ambiente escolar/campos de férias e piscinas. Como é que os pais podem distinguir uma conjuntivite alérgica (causada pelo sol, calor ou pólenes) de uma conjuntivite infeciosa/bacteriana (que se propaga na água)?
Esta é típica do verão porque as duas coisas — sol/calor/pólenes e água de piscinas partilhadas — coexistem na mesma época.
1. Alérgica (sol, calor, pólenes, cloro):
- Muita comichão (é quase o sintoma-chave)
- Costuma afetar os dois olhos ao mesmo tempo
- Lacrimejo aquoso e transparente
- Pálpebras podem inchar
- Frequentemente associada a espirros, nariz a “pingar”
- Não é contagiosa
2. Infeciosa (vírica ou bacteriana, própria de piscinas/escolas/colónias):
- Secreção mais espessa, amarelada ou esverdeada, sobretudo ao acordar (as pestanas ficam “coladas”)
- Costuma começar num olho e passar depois ao outro em 1-2 dias
- Sensação de “areia no olho”, ardor mais do que comichão
- É contagiosa — espalha-se facilmente em piscinas, toalhas e mãos
- Pode vir acompanhada de febre ligeira ou sintomas de constipação, se for vírica
Na dúvida, um pediatra ou oftalmologista consegue distinguir rapidamente e isso muda o tratamento (anti-histamínico numa, versus medidas de higiene rigorosa e, por vezes, antibiótico tópico na outra).
Que hábitos simples de higiene podemos ensinar às crianças durante as férias para evitar o contágio e a transmissão de infeções oculares entre amigos e irmãos?
- Lavar as mãos com frequência, e sempre antes de tocar nos olhos.
- Ensinar a não esfregar os olhos (mais fácil dizer do que fazer, mas vale insistir).
- Toalhas, fronhas e óculos de sol individuais — nada de partilhar, especialmente se alguém já tem sintomas.
- Se uma criança tem conjuntivite infeciosa, o ideal é não ir à piscina/colónia enquanto houver secreções, e avisar os responsáveis do infantário/campo de férias.
- Óculos de natação (de piscina) ajudam a barrar tanto o cloro como microrganismos, e de caminho evitam que se esfreguem os olhos com as mãos molhadas.
Para as crianças e adolescentes que já usam lentes de contacto (por exemplo, para desporto), quais são os perigos de tomar banho no mar ou na piscina com as lentes colocadas?
Aqui o cuidado deve ser sério. Usar lentes de contacto durante o banho ou duche aumenta significativamente o risco de infeção por Acanthamoeba, um microrganismo presente em piscinas cloradas, água da torneira e água do mar. A lente funciona quase como uma “esponja” que retém o microrganismo colado à superfície do olho durante muito mais tempo do que aconteceria sem lente.
A infeção resultante, a queratite por Acanthamoeba, é rara mas pode causar perda de visão significativa ou mesmo cegueira, e é frequentemente confundida com outras infeções mais banais, o que atrasa o diagnóstico certo.
Regras práticas para adolescentes que usam lentes no desporto:
- O ideal é tirar as lentes antes de qualquer banho (mar, piscina, lago).
- Se for mesmo indispensável usá-las (por exemplo, em competição), usar sempre óculos de natação bem ajustados por cima — reduz mas não elimina o risco.
- Nunca usar água da torneira para lavar ou guardar as lentes.
- Depois de qualquer contacto com água, lavar/desinfetar as lentes conforme as instruções, ou preferencialmente deitá-las fora se forem descartáveis.
- Se surgir dor, vermelhidão persistente ou visão turva depois de nadar com lentes, não esperar — ir ao oftalmologista.
Para terminarmos, quais são os sinais de alerta vermelhos nos olhos de uma criança durante o verão que indicam aos pais que não devem esperar e que têm de ir imediatamente a uma urgência oftalmológica?
Não esperem “para ver se passa” se surgir qualquer um destes sinais numa criança, no verão:
- Dor intensa no olho, sobretudo se acordar a criança a chorar ou impedir de abrir o olho.
- Perda ou diminuição súbita da visão.
- Sensibilidade extrema à luz (fotofobia marcada).
- Olho muito vermelho só de um lado, com secreção abundante e febre.
- Suspeita de objeto estranho que não sai com lavagem simples (areia, insetos, corpo estranho metálico ou de vidro).
- Traumatismo direto no olho (bola, pau, queda) com inchaço rápido ou sangue visível dentro do olho.
- Pálpebras muito inchadas e vermelhas, com a criança prostrada ou febril — pode ser uma infeção mais profunda (celulite periorbitária), que é urgente.
- Lentes de contacto usadas na água seguidas de dor, vermelhidão e visão turva persistente.
Nestes casos, mais vale ir logo às urgências de oftalmologia do que esperar pela consulta do pediatra — o olho é um órgão onde “esperar para ver” pode custar caro.

Este artigo foi validado pelo Dr. Tiago Fernandes cédula nº 57538 emitida pela Ordem dos Médicos, Oftalmologista no Hospital Lusíadas Braga.
O artigo é informativo e não substitui a avaliação médica personalizada.
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