Passamos grande parte do dia a confiar nos nossos olhos para trabalhar, conduzir, ler e comunicar. No entanto, com que frequência cuidamos realmente deles? É muito comum associar-se a consulta de Oftalmologia apenas à necessidade de usar ou trocar de óculos. Mas a verdade é que os nossos olhos escondem pistas vitais sobre a nossa saúde geral e podem desenvolver problemas graves sem que nos apercebamos.
Para nos ajudar a compreender a verdadeira importância da prevenção, a Dr.ª Margarida Ribeiro, Médica Oftalmologista no Hospital Lusíadas Paços de Ferreira, respondeu às dúvidas mais frequentes sobre o check-up oftalmológico.
– Dr.ª Margarida, muitas pessoas pensam que só devem ir ao oftalmologista quando sentem que estão a ver mal. O que é, afinal, um check-up oftalmológico completo?
É fundamental percebermos que ver bem não é sinónimo de ter os olhos saudáveis. O erro refrativo — a necessidade de óculos para miopia, astigmatismo ou hipermetropia — é apenas a ponta do icebergue da saúde ocular. Um check-up oftalmológico completo é uma avaliação médica minuciosa de toda a estrutura do olho. Nós não avaliamos apenas a nitidez da visão (a acuidade visual), analisamos a saúde da córnea, do cristalino, da retina, dos vasos sanguíneos e do nervo ótico, além de medirmos a pressão intraocular. O grande objetivo vai muito além da “receita de óculos”: o foco é a prevenção e o diagnóstico precoce de patologias que podem colocar em risco a visão a longo prazo.
– Há doenças oculares graves que são completamente silenciosas nas fases iniciais? Quais são as principais patologias que consegue detetar antes de o paciente ter sintomas?
Sim, e esse é o maior perigo em Oftalmologia. Existem doenças devastadoras para a visão que não causam dor, não provocam olho vermelho e não alteram a visão central até estarem numa fase muito avançada. O exemplo mais clássico é o Glaucoma, frequentemente chamado de ladrão silencioso da visão – destrói as fibras do nervo ótico devido, na maioria das vezes, à pressão ocular elevada, mas o paciente só nota a perda visual quando esta já afetou a periferia e é irreversível. Outro exemplo é a Retinopatia Diabética e a Degeneração Macular Relacionada com a Idade (DMRI). Num check-up de rotina, conseguimos detetar pequenas alterações na retina ou no nervo ótico anos antes de o paciente notar qualquer mancha ou perda de visão. E tratar cedo faz toda a diferença entre manter ou perder a autonomia visual.
– De quanto em quanto tempo devemos fazer este exame de rotina? Essa recomendação muda com a idade, por exemplo, após os 40 ou 60 anos?
Não existe propriamente uma norma sobre a periodicidade de avaliação. A frequência vai depender muito da idade, da presença ou não de história familiar de patologia oftalmológica (por exemplo, glaucoma), da presença e tipo de patologia no própio paciente, assim como da presença de queixas. Por exemplo, independentemente da idade, se o paciente apresentar queixas, será para avaliar. Por outro lado, independentemente se o doente for assintomático, mas tiver diabetes, terá indicação para avaliação
anual para rastreio de retinopatia diabética. Também no contexto de renovação da carta de condução, o paciente deve ter parecer oftalmológico nos períodos estipulados por lei.
– Para quem nunca fez um check-up ou tem algum receio, quais são os exames fundamentais? São procedimentos dolorosos?
Podem vir perfeitamente tranquilos: as avaliações de rotina são totalmente indolores. No consultório, começamos por testar a acuidade visual (as famosas letras no ecrã) e fazemos a refração para ver se há ou não necessidade de óculos ou, caso já os use, para avaliar a necessidade de os atualizar. Depois, utilizamos a lâmpada de fenda (um microscópio especial) para avaliar a parte externa e interna do olho. Também medimos a pressão intraocular, que hoje em dia pode ser feita com um sopro de ar ou com um pequeno toque na superfície do olho, após a aplicação de uma gota de colírio anestésico, pelo que o paciente não sente dor absolutamente nenhuma. São testes rápidos, seguros e confortáveis.
– Muitos pacientes ficam apreensivos com a “dilatação da pupila”. Porque é que este passo é tão importante e que cuidados se deve ter após a consulta?
Percebo perfeitamente o receio, mas a observação com recurso à midríase farmacológica, ou seja, o processo de dilatação da pupila com determinadas gotas é a nossa melhor janela para o interior do olho. Ao aplicarmos as gotas para abrir a pupila, conseguimos realizar o exame de fundo de olho. É através dele que observamos a retina, a mácula (responsável pela visão de detalhe), os vasos sanguíneos e o nervo ótico. Nem todos os utentes terão necessidade para serem submetido a este tipo de avaliação, mas sem dúvida que este tipo de exame nos traz maior detalhe e amplitude de visualização do fundo ocular. O efeito das gotas dura algumas horas, provocando visão turva (especialmente ao perto) e uma maior sensibilidade à luz. Por isso, recomendamos sempre que o paciente traga óculos de sol para o conforto à saída e, muito importante, não conduza logo após a consulta, devendo idealmente vir acompanhado ou optar por outro meio de transporte.
– Para terminar, que mensagem principal gostaria de deixar a quem não faz um exame visual há vários anos?
A avaliação oftalmológica periódica deverá fazer parte da rotina do utente, Cuidar da visão é cuidar do
seu bem-estar e da sua qualidade de vida. Um check-up simples e rápido pode salvar anos de visão saudável. Priorize a saúde da sua visão.

Este artigo foi validado pela Dr.ª Margarida Ribeiro, cédula nº 66819 emitida pela Ordem dos Médicos, Oftalmologista no Hospital Lusíadas Paços de Ferreira.
O artigo é informativo e não substitui a avaliação médica personalizada.
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