“O descolamento da retina é uma das situações mais graves em oftalmologia e requer intervenção rápida”

Numa era marcada pelo envelhecimento progressivo da população, pelo aumento da prevalência de doenças crónicas, como a diabetes, e pelo uso intensivo de ecrãs, as doenças da retina tornaram-se um desafio crescente para a saúde pública.

A Dr.ª Rita Gentil, oftalmologista da equipa Oftaline no Hospital Lusíadas Braga, deu uma extensa entrevista à Revista Spot, onde abordou as patologias mais relevantes da atualidade, como o descolamento da retina, a degenerescência macular da idade (DMI) e a retinopatia diabética. Falou ainda sobre sinais de alerta, avanços no diagnóstico e tratamento, e esclareceu algumas das principais dúvidas que persistem quando o tema é a saúde ocular.

Leia a seguir a entrevista completa:

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Comecemos pelo início: o que é a retina e qual o seu papel na nossa visão?

A retina é uma camada muito fina e altamente vascularizada que reveste a parte interior do olho, como se fosse um “tapete” que cobre toda a parede posterior do globo ocular. É composta por células sensíveis à luz, os fotorreceptores, que captam a imagem e a transformam em impulsos nervosos. Esses impulsos são depois transmitidos ao cérebro através do nervo ótico. É graças a esta estrutura que conseguimos ver.

O que é exatamente o descolamento da retina e quais são os sinais de alerta que exigem atenção imediata?

O descolamento da retina é uma das situações mais graves em oftalmologia e requer intervenção rápida. Ocorre quando a retina se separa da parede posterior do olho, ou seja, sai do seu lugar anatómico.

O interior do olho está preenchido por um gel chamado vítreo, que com o envelhecimento tende a tornar-se mais líquido e a encolher. Durante esse processo, o vítreo pode puxar a retina nos pontos onde está mais aderido a ela. Em algumas situações, essa tração pode causar uma rasgadura ou buraco na retina. Através dessa abertura, o líquido entra e acumula-se por baixo da retina, descolando-a.

Os sinais de alerta incluem o aparecimento súbito de “moscas volantes” (manchas escuras que parecem flutuar no campo de visão), flashes de luz (como relâmpagos), ou uma sombra/cortina que parece invadir uma parte do campo visual. Perante qualquer um destes sintomas, é fundamental consultar um oftalmologista imediatamente.

Se o problema for detetado numa fase inicial, quando ainda só existe uma rasgadura, é possível intervir com laser ou outros tratamentos menos invasivos. No entanto, quando o descolamento já está instalado, é geralmente necessária uma cirurgia, como a vitrectomia, o procedimento mais utilizado, embora, em alguns casos, possam ser consideradas outras técnicas, como a indentação escleral, consoante as caraterísticas do descolamento.

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Quais são os fatores de risco mais relevantes para o descolamento da retina? É possível preveni-lo?

O descolamento da retina é uma situação oftalmológica grave e, infelizmente, não existe uma forma totalmente eficaz de o prevenir. No entanto, há fatores de risco que merecem atenção. Um dos principais é o processo natural de envelhecimento do olho. Com o passar dos anos, geralmente a partir dos 45-50 anos, o vítreo, a tal substância gelatinosa que preenche o interior do globo ocular, tende a contrair-se e pode provocar pequenas rasgaduras na retina, favorecendo o seu descolamento.

Além da idade, existem outros fatores que aumentam significativamente o risco, como a miopia elevada, antecedentes familiares de descolamento da retina, historial de descolamento no outro olho, traumas oculares e cirurgias intraoculares prévias. Embora não possamos impedir o envelhecimento ou alterar a nossa predisposição genética, estar atento aos sintomas e procurar rapidamente avaliação médica pode fazer toda a diferença na preservação da visão.

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Degenerescência macular da idade: o que está na origem desta condição e porque é que afeta sobretudo os idosos?

A degenerescência macular da idade (DMI) resulta de um envelhecimento acelerado da mácula, a zona central da retina responsável pela visão de detalhe e pela perceção das cores. Esta região contém células especializadas, como o epitélio pigmentar da retina, que com o tempo podem degenerar, afetando de forma significativa a visão central.

Como o próprio nome indica, o principal fator de risco é a idade. Trata-se de uma condição cada vez mais prevalente, não só porque o envelhecimento é inevitável, mas também porque, felizmente, vivemos mais tempo. 

Apesar de não existir cura, um estilo de vida saudável, com dieta equilibrada, prática regular de exercício físico e cessação tabágica, pode ajudar a atrasar a progressão da doença. Muitas pessoas com DMI mantêm uma vida autónoma durante bastante tempo, embora possam notar dificuldades crescentes em tarefas como ler, reconhecer rostos ou ver com nitidez ao centro do campo visual. A visão periférica, no entanto, tende a manter-se intacta.

Existem avanços promissores no tratamento da Degenerescência Macular da Idade (DMI)?

Sem dúvida. Antes de mais, importa referir que a Degenerescência Macular da Idade (DMI) tem duas formas principais: a forma seca e a forma húmida. A forma seca é a mais comum, representando cerca de 80% dos casos. Esta está associada ao envelhecimento da retina e, atualmente, não dispõe de um tratamento curativo. A abordagem passa essencialmente pela modificação de fatores de risco, como a cessação tabágica, a adoção de uma dieta equilibrada e, em alguns casos, a toma de suplementos antioxidantes. Existem também fármacos em fase de investigação para esta forma.

A forma húmida da DMI, por sua vez, é mais agressiva. Nesta variante, ocorre o crescimento anómalo de vasos sanguíneos sob a retina, um processo conhecido como neovascularização coroideia. Estes vasos frágeis podem provocar hemorragias e levar à perda rápida de visão. É aqui que se têm verificado avanços muito relevantes.

O tratamento atual baseia-se na administração de fármacos antiangiogénicos, que inibem o crescimento destes vasos anómalos. Estes medicamentos são administrados através de injeções intraoculares, realizadas em ambiente estéril, sob rigorosas condições de assepsia.

Estes fármacos têm revolucionado o prognóstico da forma húmida da DMI, permitindo estabilizar a doença, evitar a perda de visão e, em alguns casos, até recuperar alguma acuidade visual. Continuam a surgir novos fármacos, com o objetivo de reduzir a frequência das injeções, o que representa uma melhoria significativa na qualidade de vida dos doentes, considerando o impacto social, económico e emocional deste tipo de tratamento crónico.

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A retinopatia diabética continua a ser uma das principais causas de cegueira evitável. Que papel desempenham o controlo glicémico e o rastreio precoce na sua prevenção?

A retinopatia diabética é, de facto, a principal causa de cegueira evitável em idade ativa nos países ocidentais, um verdadeiro problema de saúde pública.

A diabetes, seja do tipo 1 (por défice de insulina) ou tipo 2 (por resistência à insulina), provoca alterações vasculares em vários órgãos, incluindo a retina, que é um tecido altamente vascularizado e metabolicamente exigente.

Na retinopatia diabética, os vasos sanguíneos da retina sofrem lesões que podem levar a extravasamento de fluídos, hemorragias e outras alterações estruturais. Muitas vezes, esta condição é assintomática nas fases iniciais. Quando os sintomas surgem, como a perda de visão, já existe normalmente envolvimento da mácula, a zona central da retina responsável pela visão detalhada.

Por isso, o rastreio precoce é absolutamente fundamental. Recomenda-se que todos os doentes diabéticos façam um exame anual ao fundo do olho, mesmo que não tenham queixas visuais. A deteção atempada permite intervir antes de ocorrer dano irreversível.

O controlo metabólico rigoroso da diabetes é igualmente crucial. Bons níveis de glicemia, colesterol e tensão arterial são a primeira linha de defesa contra a retinopatia diabética. o estadiamento da doença faz-se de acordo com sistemas de classificação clínica que ajudam a orientar o seguimento e tratamento, como a classificação ETDRS (utilizada em contexto médico).

Nos casos mais avançados, ou quando há envolvimento da mácula (edema macular diabético), recorre-se a tratamentos como injeções intraoculares de antiangiogénicos ou, em alguns casos, de corticóides, uma vez que pode existir um componente inflamatório associado. O laser retiniano continua também a ser uma ferramenta terapêutica útil, sobretudo nas formas proliferativas da doença, embora a sua utilização tenha diminuído nas fases iniciais com o advento das injeções intraoculares.

O controlo da doença sistémica e o rastreio regular são as duas estratégias mais eficazes para prevenir a cegueira associada à retinopatia diabética, mesmo antes de qualquer necessidade de tratamento ocular.

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Como é feito atualmente o diagnóstico das doenças da retina? Que tecnologias têm vindo a revolucionar esta área nos últimos anos?

Felizmente, a oftalmologia tem evoluído de forma notável nos últimos anos, especialmente no que toca à área da retina. Hoje em dia, contamos com tecnologias avançadas que nos permitem obter imagens de altíssima resolução e com um campo visual muito mais alargado do que antigamente. Se antes as fotografias da retina abrangiam apenas uma área reduzida, atualmente conseguimos visualizar praticamente toda a extensão retiniana, graças a equipamentos como os retinógrafos de campo amplo, também conhecidos como wide field.

Entre os exames mais revolucionários destaca-se, sem dúvida, a Tomografia de Coerência Óptica (OCT). Costumo dizer aos meus doentes, em tom de brincadeira, que o OCT é como uma “biópsia da retina”, mas sem agulhas, é totalmente não invasivo e permite-nos ver todas as camadas da retina, que são cerca de dez. Esta tecnologia permite-nos estudar a anatomia da retina com grande detalhe, o que é fundamental para um diagnóstico preciso.

Além do OCT, temos ainda exames mais invasivos como a angiografia fluoresceínica e a angiografia com verde de indocianina, que implicam a injeção de um contraste na corrente sanguínea. Esse contraste viaja até aos vasos da retina, permitindo-nos avaliar, por exemplo, se existem alterações vasculares, onde se localizam e qual o grau de oxigenação da retina. Este tipo de exame é essencial, por exemplo, no caso da retinopatia diabética.

Mais recentemente, surgiu uma evolução ainda mais promissora: a angiografia por OCT, que dispensa o uso de contrastes. Através do movimento do sangue nos vasos, conseguimos visualizar a vascularização da retina, em especial da zona central (mácula), de forma muito detalhada.

Estes quatro exames, retinografia de campo amplo, OCT, angiografias e OCT-angiografia, são hoje fundamentais na avaliação das doenças da retina e revolucionaram a nossa capacidade de diagnosticar e acompanhar estas patologias.

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Quais são os maiores desafios no tratamento das doenças da retina em Portugal? Acesso, diagnóstico precoce, adesão ao tratamento…?

As doenças da retina são extremamente variadas, desde a degenerescência macular da idade, à retinopatia diabética, aos descolamentos de retina, ou ainda a patologias vasculares como as tromboses ou oclusões de veias e artérias. Cada uma tem as suas especificidades, mas os desafios no tratamento apresentam alguns pontos comuns.

Um dos principais obstáculos continua a ser o acesso aos cuidados de saúde, sobretudo no Serviço Nacional de Saúde (SNS), onde a escassez de profissionais e a elevada pressão sobre o sistema dificultam muitas vezes o diagnóstico atempado. No setor privado, o desafio é diferente: por vezes o doente não reconhece os sintomas ou não sabe a quem recorrer. É importante lembrar que, mesmo sendo uma estrutura pequena, o olho tem várias áreas de especialização e a retina é uma delas.

Depois do diagnóstico, o desafio passa pelo planeamento adequado do seguimento e do tratamento. Nem sempre é necessário tratar de imediato, mas é fundamental explicar ao doente o que está a acontecer e acompanhar de forma próxima, para prevenir o agravamento da doença. Promover a literacia em saúde ocular e reforçar a importância do acompanhamento regular são aspetos muitas vezes subvalorizados, mas cruciais para evitar danos irreversíveis.

Infelizmente, é aqui que muitas vezes falhamos: quando o tratamento é adiado, podemos já não conseguir recuperar a visão perdida. A chave está em intervir antes que ocorram danos irreversíveis. Diria que os pilares essenciais são: acesso, diagnóstico precoce, vigilância rigorosa e intervenção atempada.

A saúde ocular está intimamente ligada ao nosso estilo de vida. Que hábitos, tanto visuais como de saúde geral, podem ajudar a proteger a retina ao longo da vida?

A verdade é que, na maioria das vezes, as doenças da retina não têm uma causa direta imediata. Muitas surgem porque há predisposição para isso, seja por fatores genéticos, envelhecimento ou alterações naturais do organismo.

Ainda assim, tal como em muitas outras áreas da saúde, o nosso estilo de vida pode ter um impacto significativo. Um dos grandes inimigos da saúde retiniana é o tabaco, o tabagismo está associado a várias patologias da retina. Também a alimentação desempenha um papel fundamental: uma dieta equilibrada, como a dieta mediterrânica, rica em antioxidantes, fruta, vegetais e ácidos gordos essenciais, pode ajudar a proteger as células da retina.

A prática regular de exercício físico é outro ponto importante. Não só promove a saúde cardiovascular como contribui para uma melhor oxigenação e circulação sanguínea, o que beneficia também os olhos.

Claro que há fatores que não conseguimos controlar, como a idade ou a carga genética. Mas se houver antecedentes familiares de doenças oculares, devemos estar ainda mais atentos e fazer exames regulares.

Outro ponto essencial é a proteção contra os raios ultravioleta. A exposição prolongada à radiação UV pode ser prejudicial para a retina. Por isso, recomenda-se o uso de óculos de sol com proteção certificada contra os raios UV, bem como chapéus em dias de sol intenso. Esta proteção é fundamental, não só para prevenir doenças degenerativas da retina, mas também para reduzir o risco de patologias mais graves, como os melanomas oculares.

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Há muitos mitos relacionados com a perda de visão e com a retina. Quais são os mais comuns?

Sim, há bastantes mitos, alguns com alguma base científica, outros sem fundamento.

Um dos mais conhecidos é o da cenoura: “Comer cenoura faz bem aos olhos.” É verdade que a cenoura é rica em vitamina A, que é importante para a saúde ocular, mas não é uma poção mágica para proteger ou melhorar a visão. Claro que pode ser um bom argumento para convencer as crianças a comer legumes, mas não há uma relação direta e exclusiva entre comer cenoura e ter boa visão.

Outro mito comum é a ideia de que usar óculos enfraquece os olhos. Isto não é verdade. Os óculos existem para corrigir erros refrativos e melhorar a acuidade visual. Usá-los não faz os olhos “preguiçosos” nem acelera a progressão do problema.

Também se diz muitas vezes que “é normal perder a visão com a idade”. Não é bem assim. Embora o envelhecimento aumente o risco de certas doenças oculares, como a DMI, a perda significativa de visão não deve ser encarada como uma consequência inevitável da idade, pois muitas destas condições são detetáveis precocemente e tratáveis.

A presbiopia, ou perda de visão ao perto, essa sim é comum e quase universal a partir dos 40-45 anos, agravando-se com o tempo. Mas não devemos confundir isso com perda global de visão.

Outros mitos incluem ler com pouca luz ou ver televisão de muito perto. São hábitos que podem causar fadiga ocular, sim, mas não estão associados a danos estruturais nos olhos ou à retina.

E já agora, há outro hábito muito comum que vale a pena mencionar: coçar os olhos. É algo que se vê muito, especialmente em crianças, mas também em adultos. Coçar os olhos com frequência e de forma vigorosa pode causar alterações na superfície ocular, sobretudo na córnea. Não provoca diretamente doenças da retina, mas pode causar inflamações e irritações na superfície ocular, e em casos raros, estar associado a condições mais graves como o queratocone. Por isso, é um hábito a evitar, e se houver comichão persistente, o ideal é procurar um oftalmologista para avaliar a causa.

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